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Entrevista: Ronaldo Simões Coelho – Macaquinho

Data: 17/05/2012

Nascido na cidade mineira de São João del Rei, ele sempre viveu entre livros e lendas. Desde a infância, já queria ser médico e escritor, e conseguiu realizar seus dois sonhos. Há mais de 50 anos, Ronaldo Simões Coelho exerce a psiquiatria e hoje possui mais de 40 livros infanto-juvenis publicados – alguns premiados e publicados no exterior. E qual seria o segredo para conciliarmos dois trabalhos diferentes e de modo tão agradável? “Sempre gostei do que faço, seja como médico ou escritor, mas também como contador de histórias, ler, viajar, ter amigos, conviver com meninos nas escolas, tudo que a vida oferece”, disse o autor, que estará no dia 20 de maio, domingo, em tarde de autógrafos do livro Macaquinho, durante a Bienal do Livro de Minas, ao lado do também escritor mineiro Alexandre Guimarães. Tivemos uma conversa genial com o autor que você confere a seguir:

FTD: Quando e como você começou a escrever? Qual foi o seu primeiro livro?
Ronaldo Simões Coelho: Há uma grande diferença entre escrever um livro e publicar um livro. O primeiro que escrevi era sobre o godério que botava ovos no ninho da tico-tico. Acho, hoje, que vou enviar pra uma editora. Quem sabe a FTD? O primeiro livro a ser publicado foi na década de 70 e se chamava Dois embaixo e um em cima, que trata da amizade entre uns meninos e um macaco ameaçado de extinção, o mono carvoeiro.

FTD:  Além de escritor, você também é médico e parece ter conciliado bem ambas as carreiras…
RSC: Eu nunca fui psiquiatra de crianças. Mas o fato de ter sete filhos me levou a contar histórias para eles, como sempre aconteceu comigo, meus irmãos, meus primos, todo mundo, pois o que mais havia na nossa infância era gente contando causos. Em São João del Rei, onde nasci, até os sinos contam o que está acontecendo, se é toque de casamento ou de enterro, se o morto é homem, mulher, etc, e em Prados, onde passávamos nossas férias, a coisa era mais intensa ainda.

FTD:  Quanto ao livro Macaquinho: como surgiu a ideia de escrevê-lo? Quando ele foi publicado pela primeira vez?
RSC: O Macaquinho já tem mais de 25 anos, foi publicado inicialmente pela Editora Lê e hoje está na FTD. Era uma coleção de quatro livros: Amanhecer na Roça, Chuva e Chuvisco, A Laranja Colorida e Macaquinho. Quando eu chegava do consultório eu ia de cama em cama, ou reunia todos na cama grande e contava historias. Por isso é que digo que o macaquinho era eu, pois eu é que passava pra cama deles e só raramente eles pra minha cama. De cara a coleção ganhou prêmios e o Macaquinho foi para o México e a Bolívia para distribuição gratuita pelos governos de lá.

FTD:  Você tem um carinho especial por alguma(s) de suas obras?
RSC: Essa pergunta me é feita sempre pelas crianças e eu dou uma resposta simples: é como gostar mais de um filho do que de outro. Mas o último a nascer, pequenininho, ainda mamando e sem saber falar, sempre fica um período na frente dos outros.

FTD:  Onde você se inspira para criar suas histórias e seus personagens? 
RSC: Não sei dizer muito sobre o que seja inspiração. Quando escrevi Tia Delica, eu estava homenageando uma tia avó que sempre morou na nossa casa, queria ser uma fada e um dia foi embora para sempre. Mas posso escrever sobre um ratinho considerado louco, sobre um papagaio que expulsa as aves grandes e invasoras (as araras), sobre um avô que faz trocas de brinquedos com o neto e outras aventuras, sobre meninos cujas aventuras nas cidades históricas são coroadas de êxito. Às vezes uma só palavra me faz criar uma história, mas o essencial para mim é sempre deixar que meu leitor seja também um autor, soltando a imaginação e a criatividade.

FTD:  Você sente que, ao longo desses anos, o público infantojuvenil mudou de alguma forma? Se mudou, como as mudanças influenciam na hora de escrever um livro? Você acha que um escritor de obras infantojuvenis tem um compromisso especial na formação dos jovens leitores?
RSC: Tudo indica que o público infantojuvenil, sempre interessado em livros, levou as editoras e autores a capricharem na apresentação dos livros e dos textos e ilustrações. O fenômeno, a meu ver, é o inverso de sua pergunta. Os autores e ilustradores foram valorizados e o resultado é o que estamos vivendo atualmente.

FTD:  Como ser psiquiatra influencia no processo de se escrever um livro? E ser escritor, também influenciou de alguma forma em seu trabalho como médico?
RSC: Não sei se há uma influência mútua, mas creio que ambas as atividades trabalham com as mesmas ferramentas, tais como a criatividade, o imaginário, a fantasia, o humor e uma cumplicidade entre autor e leitor sempre crescente.

FTD:  Você participará de uma tarde de autógrafos neste domingo, na Bienal do Livro de Minas. Como é, para um autor, participar de um evento literário e ter esse contato com os leitores?
RSC: Devo estar presente em pelo menos dois momentos na Bienal do Livro, sendo que ambos são de contato com a meninada e eventual momento de autógrafos.

FTD:  No livro de seu companheiro na sessão de autógrafos, o Alexandre Guimarães, tem um personagem baseado em você. Qual foi sua reação ao saber disso? Você tem contato com outros jovens autores?
RSC: O belo texto de Alexandre Guimarães, que me dedica a obra e me coloca como personagem, é motivo de grande alegria para mim. Tenho incentivado muitos amigos a escreverem e o resultado tem sido uma agradável surpresa.

FTD:  Voltando um pouco para o passado: quais os escritores que te influenciaram no início?
RSC: Na minha casa havia livros em grande número e o fato de os mais velhos serem ávidos leitores contagiava os mais novos. Lembro-me de ter lido o Tesouro da Juventude aos nove anos. Minhas preferências eram Monteiro Lobato, Malba Tahan, Erico Veríssimo e os livros de Tarzan, Robinson Crusoe e tantos outros que eram digeridos diariamente. Julio Verne foi um alimento constante. Na nossa casa, presentear com livros era um hábito constante.

FTD:  O que você aprendeu escrevendo para crianças após todos esses anos?
RSC: O que tenho vivido como escritor corresponde a frequentar uma universidade dia e noite e não querer deixá-la nunca.

FTD:  Qual conselho você daria para as crianças que querem se tornar escritoras? E para quem já tem uma carreira e deseja também escrever uma obra?
RSC: Drummond escreveu um livro chamado Amar se aprende amando. Tudo é assim: escrever se aprende escrevendo, ler se aprende lendo, falar se aprende falando, etc.

 

Tarde de autógrafos: Ronaldo Simões Coelhoestará no estande da FTD na Bienal do Livro de Minas dia 20 de maio, às 14h30, autografando a obra Macaquinho (convite virtual). O público também poderá conferir a contação da história do livro. Mais sobre as atividades da FTD no evento em nosso hotsite.

Também conversamos com o autor Alexandre Guimarães há um tempo atrás e a entrevista você confere aqui.

 

Por Juliana Parollo

 

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