Notícias

det_cores_escravidao1

Entrevista: Ieda de Oliveira – As cores da escravidão

Data: 13/05/2013

No dia 13 de maio de 1888 foi declarada a Abolição da Escravatura, com a assinatura da Lei Áurea pela Princesa Isabel. Mas, será que esse é realmente um assunto do passado? Em seu lançamento, As cores da escravidão, Ieda de Oliveira mostra que, infelizmente, não.

A autora conta, na entrevista a seguir, como foi doloroso o processo de escrever essa narrativa ficcional, baseada em documentos atuais sobre o trabalho escravo no Brasil, e que pesquisar sobre este tema consistiu em uma revisita ao seu próprio passado. “Espero que a obra contribua para abrir portas, despertar olhares e novos questionamentos, principalmente dos jovens, sobre a emergência desta questão ainda tão atual”, explica a autora, que lança o seu livro hoje – 13 de maio, Dia da Abolição da Escravatura – na Blooks Livraria (Praia de Botafogo, 316 – dentro do Cinema Arteplex – Rio de Janeiro-RJ). O encontro ainda vai contar com a participação do historiador e professor Joel Rufino dos Santos, grande referência nacional no tema escravidão, na condução do bate-papo.

FTD: Ieda, como surgiu o desejo de escrever sobre este tema?
Ieda de Oliveira: Tudo começou em 2007, quando fui convidada a ir à África para ministrar um curso para escritores angolanos. Lá, tive a oportunidade de entrevistar um Soba – autoridade regional tradicional de Angola – e tive um encontro profundo com minhas raízes, uma vez que meu pai é descendente de angolanos, e comecei a ter um olhar mais apurado sobre a questão da escravidão. Aquilo me mobilizou, mas não com o objetivo de escrever, inicialmente. Quando voltei ao Brasil, comecei a me interessar por tudo que dizia respeito à África, fiz um curso de extensão na UFRJ sobre cultura africana e comecei a ver o quanto a escravidão ainda existe em nosso país. O que me aproximou ainda mais do assunto foram alguns documentos que meu filho, que faz concurso para juiz, me mostrou, sobre o absurdo do trabalho escravo que ainda existe no Brasil.

FTD: Como foi escrever a história de Tonho, personagem de seu livro, e tratar de um tema tão denso e doloroso em sua obra?
Ieda de Oliveira: Entre os documentos que tive acesso, tinha um da pastoral da criança com o depoimento de um menor, que me impressionou muito. Um trecho dele está reproduzido no início do livro. Entrei na pele deste menino e fui revisitando todo esse processo de ter uma infância esfacelada, ao qual eu mesma passei e me identifiquei por trazer em mim essas três dores – de ser filha de pai negro, mãe branca e neta de avó índia. Ver o que ainda acontece a tantos adultos e jovens mexeu muito comigo e então comecei a escrever. Em alguns momentos do livro esta intertextualidade fica nítida, como na menção ao Artigo 146 do Código Penal, que mostra como os crimes nele descritos foram cometidos contra Tonho e todos os personagens. É a partir desta interface entre documento e ficção que eu faço esta narrativa. Também procurei fazer uma intertextualidade da figura do gato, aliciador do trabalho escravo, com o clássico Gato de Botas. O gato fulano, gato cicrano, com suas botas grandes, cabelo longo, era aquele que faria de Tonho um marquês.

FTD – No livro, tem alguma parte que mais a tocou?
Ieda de Oliveira: Sim, no momento em que Tonho constata que ele não era o Marquês de Marabá, que aquele gato nada tinha a ver com o Gato de Botas, que ele não ficaria rico e nada seria como ele sonhava. É o momento em que o personagem tem de trilhar sozinho, sem fantasia alguma, tendo de amadurecer. Neste momento, até tive que dar uma parada no livro. Foi o meu momento de inaugurar a história, como o próprio Tonho diz em certo momento, e caminhar sem fantasia. Foi a hora em que tive de entrar na minha pele de 10 anos para continuar escrevendo.

FTD: Quando você resolveu ser escritora?
Ieda de Oliveira: Eu era uma criança que inventava palavras, músicas. Eu achava que, quando cantasse, tinha que criar. A primeira que criei foi Rhaimischimbilim, que, inclusive, deu nome ao meu primeiro livro e até virou nome de uma música de Ney Marques e João Carlos Martins. Meu pai me proibiu de estudar música, mas eu inventava partituras, usava sons da natureza, pulava janela para acompanhar orquestra… bom, como eu não pude estudar música, acabei seguindo o que, para mim, seria o caminho mais próximo dela, as letras. É por isso que tenho o meu lado pesquisadora, compositora e escritora.

FTD: E quais autores mais a inspiram?
Ieda de Oliveira: Em primeiro lugar, Machado de Assis, pela sua ironia. Minha tese inclusive foi sobre ele. Clarice Lispector, pela sua introspecção. E Guimarães Rosa também é uma paixão, pelos seus neologismos.

FTD: Pelo que você vê nos jovens, você acha que a abordagem dada à questão do trabalho escravo nas escolas é adequada? E como estimulá-los à leitura?
Ieda de Oliveira: Acho que todo tema relevante precisa ser abordado com o jovem. Ele é receptivo, curioso, por isso acho que temos que contribuir para essa reflexão. É um ato de amor e não há quem seja resistente a um ato de amor. Prazer, reflexão e o ato de abrir portas andam juntos. Não concordo com o termo estimulá-lo, mas sim, partilhar com eles. Dou um exemplo de como foi com o meu filho: aos 12 anos, ele gostava muito de rock, queria uma guitarra, que não pude dar para ele. No lugar, emprestei meu violão. Hoje, ele não só gosta de rock, como também de música erudita e de outros estilos, tem um gosto eclético. E eu, de tanto escutar música com ele, comecei a gostar de rock. Isso é partilhar, é você se doar. Como mãe, você tem que ter autoridade, claro, mas principalmente, estabelecer uma relação de partilha. Ouça o que o jovem tem a dizer se você quiser que ele te ouça. Acredito muito no exemplo. E esse filho foi tão parceiro… como na criação deste trabalho, e é a ele a quem dedico este livro.

 

Sobre Ieda de Oliveira – Com dois filhos, dois netos e mais de 25 obras de literatura infantil e juvenil, a autora é graduada em Letras – Português e Literatura – pela UFRJ, tem especialização em Literatura Infantil e Juvenil pela mesma universidade, mestrado em Literatura Brasileira pela PUC-RJ, doutorado em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa pela USP e pós-doutorado em Análise do Discurso na Universidade de Paris 13.

O lançamento de As cores da escravidão é hoje. Compareça! Veja o convite virtual.

 

Por Juliana Parollo

 

 

Tags: